08/06/2020

COM QUARTONA CANCELADA, CLUBES TENTAM JOGAR TORNEIO ALTERNATIVO
 
// Liga 1 convidou equipes da Série C, mas FFERJ vetou que participassem

Bernardo Oliveira e Gabriel Andrezo
Foto: Divulgação (Paduano EC)

 
O cenário da pandemia do novo coronavírus tem atingido, desde março deste ano, os mais diversos cenários da sociedade. Mas é no futebol das divisões inferiores que seu quadro se mostra ainda mais grave. Ao contrário do prestígio do Campeonato Carioca da primeira divisão, em que protocolos oficiais de segurança têm sido seguidos junto aos clubes para que a competição possa retornar o mais breve possível, os outros níveis do Estadual convivem com a incerteza. No último degrau, a Quartona, a notícia logo de cara foi para lá de negativa: a edição de 2020 do campeonato foi cancelada - assim como a Copa Rio e outros torneios - por não haver garantias de que a saúde de todos possa ser preservada. Com isso, ou os clubes não jogam neste ano ou buscam uma alternativa para entrar em campo.

Nos últimos meses, entrou em cena a Liga 1, campeonato idealizado pela empresa de marketing esportivo Klein Sports Brazil, para preencher a lacuna deixada pelo cancelamento da Quartona. Inicialmente, ela contaria apenas com equipes baseadas em cidades do estado do Rio de Janeiro e mantidas por prefeituras, mas os organizadores decidiram entrar em contato com equipes profissionais da quarta divisão, através de Associação dos Clubes de Menor Investimento (ACIMFUT), que acenaram positivamente. A confirmação oficial, no entanto, dependia do aval da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ). E é aí que começa o impasse: A informação sobre a negociação entre clubes e organizadores vazou e a FFERJ vetou a participação de qualquer clube no novo torneio, ameaçando de desfiliação quem não cumprir a ordem.

Na última quinta-feira (04/06), a FFERJ enviou uma circular interna aos clubes, alertando que eles não podem disputar outro torneio que não seja organizado por ela, sob pena de punição, citando os artigos 102, 109 e 124 do Estatuto da entidade. No dia seguinte, a circular virou nota oficial, em que se fala em pessoas físicas ou jurídicas que tentam organizar competições sem a chancela da Federação. Segundo ela, "não há competição a ser organizada pela FFERJ e não há aprovação para qualquer outra". Tudo isso aconteceu antes da própria entidade máxima do futebol carioca recomendar que os clubes das Séries B1 e B2 não voltassem aos treinamentos e depois da Justiça desautorizar o retorno às atividades esportivas no estado do Rio.

Do lado dos clubes, a participação no campeonato alternativo é vista como uma chance para trabalhar em meio a um ano que parece perdido para o futebol. Em condições normais, a Quartona estaria começando em julho, já depois do início programado da B1 e da B2. As exigências da Liga 1 são que seus participantes sejam filiados ou tenham intenção de se filiar à FFERJ, além de terem sede própria e reconhecimento da prefeitura de sua cidade como representantes municipais. O formato previsto, porém, é diferente em relação ao da Quartona: regionalizado, com 24 times divididos em seis grupos e os melhores de cada chave avançando ao mata-mata. A divisão dos grupos por regiões do estado é um desejo antigo dos clubes que disputam as divisões inferiores, especialmente os que ficam mais afastados da capital, mas que nunca foi totalmente atendido.

Mas é no aspecto financeiro - não só o competitivo - que se compreende melhor o porquê dos times oficiais desejarem disputar a Liga 1: cada clube precisa pagar uma taxa única de R$ 410 por partida disputada (mandantes e visitantes), ao contrário das despesas do campeonato oficial, que dificilmente é inferior a R$ 2 mil por jogo. Além disso, não há cobrança pela inscrição de jogadores no sistema da competição, enquanto na FFERJ cada clube precisa desembolsar R$ 350 para cada registro de contrato de atleta. A cobrança maior na Liga 1 fica por conta da inscrição de cada equipe: R$ 3.800 por categoria (profissional e sub-20) e R$ 2.700 (sub-15 e sub-17). Também foi prometido aos clubes que o campeonato terá, além de um sistema eletrônico de registro, um site e um aplicativo para consulta de documentos, a exemplo do que acontece nos torneios oficiais da Federação.

Com o veto, no entanto, existe um impasse. Os times que disputam a Série C do Rio não têm outra competição ao longo da temporada. Embora a FFERJ siga acompanhando os protocolos da Série A, a sede da entidade ainda está fechada. A intenção dos organizadores é entregar a documentação oficial em mãos aos dirigentes da Federação, e não por e-mail. A ideia surgiu de Júlio Klein, presidente da Klein Sports, que encontrou no cancelamento da Série C a oportunidade para angariar mais equipes e prestígio para seu campeonato, além de dar uma chance a quem se planejou, mas foi afetado pela pandemia. Ele garante que o torneio irá acontecer, mas espera um desfecho positivo para que a competição de profissionais seja liberada:

– Posso dizer que o campeonato vai acontecer de qualquer forma. Os clubes filiados à Federação precisam do aval dela para jogar uma competição, mas do sub-20 para baixo isso não é necessário. O imbróglio é que precisamos ter um documento em que a Federação não se oponha ao campeonato. A partir disso, mostramos um plano que prove que ele será de ótimo nível e para amenizar um ano muito difícil para os clubes pequenos. Acredito que a FFERJ tenha vetado num primeiro momento como uma defesa porque isso está acontecendo em muitos outros estados. Esperávamos esse posicionamento porque ainda não foi feito um pedido formal, não sentamos e conversamos ainda. Mas tudo o que queremos é o nome de nossos clubes e jogadores estando ativo. Não queremos atrito com a FFERJ.

Os clubes também adotam postura cautelosa. Embora não queiram ficar parados, os dirigentes das equipes não pretendem entrar em conflito com a entidade à qual são filiados. Winston Soares, presidente do Ceres e líder da ACIMFUT, fez a "ponte" entre organizadores e clubes órfãos de um campeonato para jogar em 2020. Segundo ele, a intenção das equipes não é de confrontamento com os órgãos oficiais, mas que as equipes possam entrar em campo apoiados pela autonomia da Associação, como chegou a acontecer há anos atrás, em vez de passarem toda a temporada sem atividade em seus respectivos departamentos de futebol.

– No primeiro momento em que soubemos que não haveria a Série C, fui ao grupo de presidentes dessa divisão, que eu ainda faço parte embora meu clube já esteja na B2. Disse a eles para que ficassem tranquilos porque não iriam ficar sem um campeonato para disputar, que ele poderia ser licenciado com a chancela da ACIMFUT. Foi assim que fizemos em 2018, quando a Federação não organizou o sub-15 e o sub-17. Uns 15 ou 20 dias depois, recebi o chamado do Júlio (Klein), que tinha interesse em contar com os times da Série C. Começamos a debater, mas nada oficial. Estávamos aguardando a Federação reabrir para que pudéssemos gerar um ofício e dar entrada formalmente – diz Winston, que também espera um final feliz e um acordo entre organizadores e FFERJ:

– Sou otimista por natureza e tenho muita fé em Deus. Acredito que tudo vai ser resolvido e, quando chegarmos lá para conversar, as coisas vão dar certo.

Apesar disso, a FFERJ segue impassível. Procurado pela reportagem da RÁDIO SUPER TORCIDA, o diretor de competições, Marcelo Vianna, rechaçou a possibilidade de liberar os clubes para a competição. Em contato pela rede social WhatsApp, Marcelo não ter nada a comentar sobre o assunto, salientando que "os clubes estão informados, através de documentação, de toda a normatização do momento, que será atualizada em momentos oportunos". Ainda segundo o dirigente, "não há e nem haverá reunião agendada para falar sobre este tema". A Klein Sports e a ACIMFUT projetam para setembro o começo da Liga 1. O Rio de Janeiro segue em isolamento social após o Tribunal de Justiça suspender decretos municipais e estaduais que previam o relaxamento nas regras de flexibilização. Até o momento, quase 60 mil casos de covid-19 foram confirmados no estado e mais de 6 mil pessoas já morreram desde o começo da pandemia.

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